Mais de 30 anos depois da versão original escrita por Benedito Ruy Barbosa ter sido lançada, Bruno Luperi, neto do autor, ficou encarregado de adaptar o texto para a produção exibida pela TV Globo. Mesmo se mantendo fiel ao texto do avô, alguns detalhes sofreram mudanças para se adequar aos novos tempos.
No entanto, muitos pontos mudaram apenas na interpretação do público. Se em 1990, Guta, de Luciene Adami, era considerada uma mulher transgressora, hoje em dia, o papel de Julia Dalavia é visto somente como uma garota urbana no meio do Pantanal. Em conversa com doutor em teledramaturgia Mauro Alencar, ele analisou a importância da personagem e as mudanças vistas em seu comportamento. Confira!
Como as décadas influenciaram no comportamento de Guta
Quando foi ao ar pela primeira vez, “Pantanal” fascinou o público com suas belas paisagens e história envolvente, além de escandalizá-lo com alguns de seus personagens que estavam à frente de seu tempo. Um destes exemplo foi Guta.
Interpretada na época por Luciene Adami, que fazia a sua estreia na televisão, a personagem já contava com um pensamento muito contemporâneo, valorizando a liberdade de seu corpo e protagonizando muitos momentos de nudez na produção.

Seu discurso já ia contra o de Tenório, papel de Antonio Petri, seu pai, se afastando do perfil de mulheres subsmissas, assim como era sua mãe, Maria ‘Bruaca’, vivida por Ângela Leal. Desta forma, a personalidade de Guta foi uma verdadeira revolução para a teledramaturgia.
“O fim oficial da Censura no país havia ocorrido em 3 de agosto de 1988. E a estreia da novela foi ao ar em 27 de março de 1990. Portanto, praticamente um ano e meio separou o acontecimento sociopolítico da produção artística da Rede Manchete”, relembra Mauro Alencar, especialista no assunto.
“A sociedade em geral clamava por liberdade. E a personagem Guta sintetizava esse desejo. Fazia a ponte entre a cidade e o campo de maneira transgressora, feminista, sensual, sexual, exibindo com naturalidade a nudez envolta pela natureza do Pantanal”, completamenta.

O doutor em Teledramaturgia ainda relembra que a personagem já fazia a defesa de sua mãe aos maus tratos do grileiro, em uma época em que a condenação à violência doméstica contra a mulher não fazia parte da pauta social.
Outro ponto extramemente simbólico foi a aparência da personagem. Enquanto a maioria das mulheres na trama tinham cabelos longos, Guta ostentava um corte na nuca. “As madeixas curtas na altura da nuca simbolizavam de imediato uma personagem moderna”, analisa Mauro.
Já em 1990, “Pantanal” teve um papel fundamental na forma como o direito das mulheres passou a ser visto. “Essa personagem contribuiu para que a mulher fosse completamente dona de si, de seu corpo, de sua sexualidade, de sua postura em sociedade. Acredito que Guta tenha sintetizado, na prática e, claro, em termos de ficção, as teorias feministas de Simone de Beauvoir no clássico livro ‘O Segundo Sexo'”, afirmou o especialista.
Hoje dando vida para a personagem, a atriz Julia Dalavia acredita que Guta consegue representar um pouco de todas as mulheres.

“A história pode ser a mesma, mas o comportamento precisa ser atualizado […] O que era transgressor em 1990 passa a ser visto como um ‘discurso social forte’”, opina Mauro Alencar.
No entanto, ao acompanhar a novela, muitas pessoas começaram a enxergar com outros olhos o comportamento da personagem, algo que acontece por conta do avanço das pautas feministas. “A diferença maior ocorre da adaptação da personagem aos novos tempos. Afinal a pauta feminista avançou – e muito – nas últimas décadas. Então o comportamento de Guta não tem mais a carga transgressora, ou seja, ela está inserida dentro de um contexto social universal”, esclarece o doutor em Teledramaturgia.
Mais do que antes, Guta se coloca contra Tenório, se impondo contra as vontades dele e medindo forças com o vilão. “Esse posicionamento da mulher diante do homem tem sido – felizmente! – cada vez mais escancarado pelos meios de comunicação”, observa Mauro.

Todo este comportamento inserido no contexto atual faz com que o público enxergue um discurso muito debatido constantemente nas redes sociais, o que faz com ficção e realidade se encontrem.
“Nem sempre é fácil separar o mundo da ficção da vida real. Antes de mais nada, Guta é uma figura de ficção e como tal tem a primazia de apresentar-se como criação de um autor […] Isso atesta o valor social da arte dramática e de nossa teledramaturgia”, finaliza Mauro Alencar.
